segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Sobre o natural

Fundos são meus olhos
acostumados a noites perdidas
perdidos entre as folhas
das árvores
vozes de crianças
brisa de quintal.
Perdidos imaginando
seu peito devastado
a dor absoluta
memórias de horror.
E o que queima e arde
é uma lembrança translúcida
que chicoteia e esmiúça
a carne humana
que dilui e multiplica
a última lágrima represada.
Porque doer por si só
é absurdo
mas sangrar a dor do outro
é sobrenatural.







segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Festival

De passo em passo
Entre poças e tropeços
Peço ajuda aos meus pés
para que me perdoem
de ser assim:
Dançarina de erros
desastrada, desperdiçada
Esmiuçada, despedaçada
Criança perdida em sensações
sonhos e beijos
cachaças,braços e volantes
Esperanças...
Porque da vida e do corpo
eu digo que entendo
e meus pés me seguem!
Mas do abandono e da morte
meu coração congrega.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Voz

Ela chegou
Como água rastejante
Em meu calcanhar
Subiu em minhas pernas
E enroscou-se como serpente
Em minhas entranhas
Perplexa
Diante de alma tão infantil
Arrebatou meus sonhos
Sentenciou meu ofício
E pôs os teus pés
À minha frente...
Desde então
Caminho em teus passos
Lentamente
Nutrindo-me de leite e sangue
Me equilibrando
Nas pedras de tua ausência
E nas águas de tua chegada
E como se já não fosse Ig
Apenas nascente do teu destino
Esqueço meu nome
Me defino única em seu timbre
Marco em gozo e em lágrima
O caminho inundado de tua língua
Até flutuar em qualquer gota
De medo e esperança
Até me perder
Na chuva de loucura
Que me trouxe a tua voz.