quarta-feira, 26 de junho de 2013

Inútil

Desci as íngremes montanhas
Do aconchego
Trazendo no corpo
Questões flamejantes
Saudades líquidas
E pés descalços.
No olhar, seu sorriso
Na alma, o calor
Torturante
De oscilantes permanências.
Venho de cenários rasos:
Praias destiladas
Planícies intencionais
E muita luz
Em tempo obscuro.
Fotofóbica
Deixo pra trás
Cálidos momentos
Reabasteço memórias
Habito outros mundos
E ao dar adeus à névoa
Que me confundia
Descubro que amar é renúncia
Que ausência é encontro
E que é tão inútil partir.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Palavras

Ando sempre em busca de palavras
Sentinelas de asperezas ou sorrisos
Recadeiros de pequenos verões
E imensos outonos...
O inverno é minha estação habitual
Estou sempre acomodada
Num frio de inércia
Ou petrificada de tristeza e saudade.
Mergulhada em rios e mares particulares
Chorando chuvas passageiras
De sensíveis verdades.
Palavras...
Guardiãs das primaveras cíclicas
De minha alma
Companheiras de cultivo
Dos meus imensos jardins.
Procuro enfim, seus rastros e sementes
Para que transcrevam minha loucura
em rastejantes raízes
Fixem meu ser em simples biografia
me esperem em qualquer parte do tempo
E me libertem de prematuros e similares
Amores-perfeitos.






sábado, 15 de junho de 2013

Busca

Ingrata certeza
De cortar-me em mil pedaços
Juntar-me todos os dias
E ainda assim
Não ser o suficiente
Para me sentir inteira...
Que completude
É essa em que esbarro
nas esperançosas esquinas
dessa cidade subterrânea
Chamada nostalgia?
Que merecimento
me aguarda
Sem legitimar
o absurdo?
Só sei
dessa linha imaginária
Entre dúvida e certeza...
E então me sinto intrusa
E inocente
Despedaçada indigente
Buscando só me recompor.








Fim

Até hoje estou morando
No universo da atitude
Sem pensar nas distantes
perguntas que me fiz
Nos minutos infinitos
Que eternizaram
aquele instante...
Em nítida certeza
E perfurante desamparo
Me vi descalça
Nas ruas do meu desejo
Vagando em cada verso
No rabisco desse traço
Quase vacilo
Retomo o ar e continuo
em meu compasso
Me equilibro em possibilidades
E enxergo em nosso beijo
Um simples e sincero
Ponto final.

Morte

Talvez não fosse preciso
Sangrar
Mas cada olhar
De tua dúvida
Me atinge como um disparo
Arrebata meus anseios
Põe meus pássaros na gaiola
E esse ar protocolar
Que desperdiça
Meu calor infantil
Me fala de ausências...
Me deixo morrer
Para me recolher
Ao mundo solitário
De vasto sentimento
Porque talvez
Essa dor
Não seja uma escolha
Seja apenas caminho
Sangrento de castigos
Seja a sentença de morte
Que carrego em meu peito
Por ser alheia ao que é óbvio
E  tão obscuro em você.




Pouco amor

Esconder vestígios
Me faz chorar
Porque cada ação
Impensada e desmedida
Revela uma intenção
Apurada e encoberta.
Amplitudes
São reveladas
em pequenos estalos
Um murmurar de vazios
Desliza em meu peito
E derrama minha tristeza
na alvura dos papéis
e na linha azul
em que teço minha mágoa.
Guardo dentro de mim
O impossível
A libertária palavra
Do poema manuscrito
em gotas lacrimais
E assim como me ganham
Alguns silêncios
E pequenas doçuras
Me perdem pra sempre
Olhares cômodos e
Pouco amor.



segunda-feira, 10 de junho de 2013

Prece

Ando contemplativa
Humanizada
Suspirando demais
Dando sinuosos passos
Em torno de um pequeno
abismo.
Caminhante
de sucessivas palavras
Apresso meu passo
Para caber em seu espaço
Pois essa cratera em meu peito
É apenas uma prece
Que ecoa em sentimento
De mútua salvação.
Como se não morasse
Em nossos porquês
Busco até hoje
O caminho que me traga
De volta a mim mesma.
Que pare de brincar
com essas ligeiras sementes
Que brotam em meus pés.
Que reflita em meus espelhos
Apenas o meu rosto
E acabe com a sua
marcante presença
em meu mundo absoluto.
Ando distante do meu ego
Querendo ser você
Em dias amenos
E ardendo em minúsculas
E poucas ambições.
Como quando criança
Onde meu desejo habitava
No intervalo entre o riso e o vento
Até te conhecer...
Hoje, o que mais me fascina
É escorregar em seu colo
Como no balanço do parque
De minha lembrança infantil.
Na euforia da queda
Busco até hoje
A sua maneira de me tocar
O prazer duradouro
de sua presença.
Então rezo
Para que me traga o aroma
De seus dedos
Seu toque de suor
sua língua de vertigem...
Para que toquem os meus acordes
E me acalmem dessa guerra
Ininterrupta
De tentar te esquecer.
Acredito apenas nesta prece
Para que se aquiete
em minhas entranhas
Sopre constantes
Canções em meus ouvidos
E contenha as águas revoltas
Que trago em meu nome.