domingo, 13 de agosto de 2017

Labaredas


Como se fosse hoje, te esperei entre as quartas mais cinzas e um quarto no alto onde se ouvia o mar. Mais uma vez. Janelas adentro, vento soprando no agosto do seu inverno. Éramos amantes, sempre a carne e o beijo. O chapéu que avistava primeiro, pulando a cancela equilibrado. Assim o bolo e o pão cheiravam mais. O desejo do corpo, uma amizade no cio. Era esse pássaro que esperava no fim da tarde para comer mais do que devia com a voracidade de quem morria de fome ou de prazer. De repente e agora vivencio seus olhos, caminhando em rua estranha. Era você, envolto a dor entorpecente, tão próxima da língua e do corpo que me cobre. 

Paixão

Meus olhos já viviam marejados, desde a visita noturna que pulou a janela e me fez sonhar. Sonhei acordada a noite inteira, entre pernas e suspiros, o cheiro de goiaba e a fome ensandecida. Me vi preenchida de plena liberdade e prisioneira do que era ilícito. Desde então, minha busca tornou-se intensa entre o seu cheiro e a minha paz. A pele lisa por onde passeia meus cílios, entre fogueira e ventania. Chuva que ondeia o barco em que navego. Navegante de minha própria sorte no mar mais revolto em que me atrevi a entrar. Sentada no cais do porto, pedi que o vento levasse seu ar de tempestade e me devolvesse as noites que posso carregar no colo, no destino incerto e provável da vida.