terça-feira, 21 de maio de 2013
Funeral
Acordei
Teus olhos me fitavam
como se eu fosse uma estranha
Aquela carne esmaecida num caixão...
Flores cheiravam a suor e alfazema
O sol era tão quente a ponto de ferver
Uma última gota de meu sangue...
A paralisia do meu corpo
não me torturava
Só teus olhos de despedida
me feriam pouco a pouco...
Não proferi mentalmente
qualquer palavra
Minha boca imóvel
Estava imune a qualquer
crime hediondo
Desses que cometia sempre:
O de dizer que de fato te amo.
Mas qualquer lembrança
Te fez sentir minha risada.
Aquela que gritava em meu peito
Toda vez que te via...
E mesmo inerte, triunfava por dentro
Numa euforia latejante.
Qualquer lampejo de ternura
te fez lembrar do meu sorriso.
Então pensei:
O que posso fazer se já estou morta?
Sei que só posso sentir...
Senti o ar frio de seu esquecimento
em cada lágrima intuída...
Convulsionei de tristeza
Ao reconstituir meus anseios...
Sua língua nessas pernas e seios
Acostumados aos seus beijos de amparo.
Então lembrei
Diante de seu indiferente olhar
De um preparo habitual...
Um ritual de longa entrega:
Vestia-me e perfumava-me
para te entregar meus cheiros.
Como se cantarolasse uma canção
sempre inacabada.
Hoje, entrego-me sob minhas vestes fúnebres
Para que jamais se lembre do meu nome
E siga seu destino em paz absoluta.
Apodreço de paixão
Porque minha morte é essa espera de pavor
Um enterro diário de muitos sentimentos
Esse alvorecer recluso em meu peito...
De entregar-me à terra a ponto de ser tragada por ela
E entregar-me a ti a ponto de querer ser esquecida.
Amar talvez seja abandonar a vida.
E morrer numa absurda realidade
de vazios dolorosos ultracoloridos
e explosivas alegrias inebriantes e fatais.
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Paixão mórbida descrita com maestria! Desolador!
ResponderExcluirObrigada pela atenção.Creio que você entenda muito bem esse caminho que percorro entre a paixão, a morte e a palavra.
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