segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Profecia

Quando já não valer a pena
Deixarei essa esperança
Estendida no varal
Fecharei delicadamente
A porta entreaberta
Atrás de mim
E darei voltas no mundo
Saltarei por imensos abismos
Sem apego aos seus braços
E tudo o que hoje em você
Me desperdiça
Já não arderá tanto...
O que em mim explode
Pulsa, derrama
Jamais despertará silêncio
Numa noite de angústia
O esquecimento não acorda
Com apenas um temporal
O amor fala mais alto
Solar, incandescente
Independente de chuvas sazonais
e tropeços de engano.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Despedida

A última palavra é a despedida
Porque velei os meus olhos
Renunciei
Á beleza do olhar sobre a vida
E acreditei  por um momento
que a verdade nunca existiu.

Achei que o que fosse raro
Mesmo que uma vez acabado
Fosse guardado num tempo
Entre o infinito e o espaço
e que nada ou ninguém
Fosse capaz de destruir
Aquilo que o universo
guardou um dia.

Como se não nos pertencesse
Como se a história
Fosse dona de si mesma...

Busquei o respeito
Senão a nós mesmos
Pelo menos que houvesse
Ao eterno bordado
em que teceram nossas vidas.
Nem que fosse ao costureiro
Que bordou nossa história!

Imaginei
Que revenciaríamos o destino
Esse eterno condutor
De causas desconhecidas
E tudo o que encontrei
Foram flores jogadas á minha cova
Por desconhecidos ignorantes
Que jamais sonharão
com as marcas e a direção
de nossos passos.

Acordei
Entre soluços
Para ver os brotos
Da desesperança nascerem
Para admirar a morte
de jardim tão florescido
Em amor e saudade
Carinho e desgraça.

Continuei dormindo
Para que talvez um dia
Volte a acreditar na vida
Lance-me em altares preciosos
para lavar minhas feridas
E curar os meus olhos
De vida, de beleza e de encontro.                              

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sempre



Minhas palavras
São insistentes
Não querem terminar
Em qualquer esquina
E se vacilam em curta estrada
Não se deixam enterrar por nada.

Tão diferentes de mim
Que fecho as portas
Á qualquer ruído de dor
Que fujo do abandono
Intuído
E já anuncio a renúncia
Mesmo antes de lutar.

Não quero destruir
Quero entrar e sair
da porta entreaberta
Descansar
em teu pequeno quarto
Sem mudar
qualquer móvel de lugar.

Em minha memória
Guardar os teus olhos
Romper o tempo minúsculo
Que nos fraciona em muitos
Impedir que o relógio
nos determine.

Não quero mexer
Em teus quadros
Quero apenas ver além
E ter o prazer de revisitar
Tua vida sempre.








Somos

Mesmo quando
Tudo em mim
vira silêncio
Tua voz ainda surge
Vibrante
Latejando
Em meus fins de semana
Vazios
Entre poucos e aparentes
passos
Em presentes encontros
Saudades aquecidas
Felizes minutos
De doce espera.
Meus pés silenciaram
Quando os teus
Puseram fim
às minhas andanças.
De andarilha
Passei a morar
em mim mesma
Me equibrando
Em peito aberto
Perto de teus caminhos
Sempre á frente
Da porta entreaberta
Que encontrei um dia.
Então entrei
Fixei morada em teu colo
Meus dedos descansaram
Em tua pele
E sentada nos bancos de areia
De tuas claras pernas
Quero falar de longas
ternuras
Sobre os estreitos
corredores
De nossa alegria.
E mal consigo articular
Uma palavra
Apenas desejo

E sinto

Sou

Somos.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Visita

Prefiro a solidão
Permanente
Que a incerteza
De encantamento
A pobre sina
Da infelicidade
Acompanhada.
Por isso te guardo
Como te aguardo
Desacompanhada
De alianças
Sobrenomes
Ou notícias
Estampadas
Em memórias alheias.
Visita-me completamente
Em cada cômodo
Do meu sorriso
Em cada varanda
Do meu olhar de espera
E habita a minha casa
Silenciosa
Com o barulho
Dos seus passos
À minha porta
Com o murmúrio
Da correnteza
Que me conduz
Á sua voz
E arrasta meus pés
Desventuras
Compromissos
Vestidos
Armaduras:
Ser sua é conceder visita
A mais pura alegria.





segunda-feira, 29 de julho de 2013

Proibido

Deixo o futuro pra depois
Porque o presente me completa
Ele fala bem alto em meus suspiros
E me espera em noites de sono
E de sonho acordado.

Hoje, não sei onde chegar
Por isso caminho sem pressa
Um dia de cada vez
Cada andança, um recomeço
Cada passo, uma saudade.

De repente
Minha dor ficou pequena
Depois de você
Tudo em mim fala baixinho
Sussurra em meus passos
Um derramar de caminhos
Cubro-me com os lenços
de tantos instantes.

Cedo, só esse amor insiste em gritar!
E como quem não espera nada
Senão a morte
Desenterro minhas últimas ambições:
Tão simples são meus sonhos
Tão persuasivas são as minhas vontades.

Só quero
que sua luz permaneça
brilhante em meus olhos
Que esse saborear lacrimal
Seja doce e intenso
E que tudo mais que nos resta
Seja eternamente proibido.



quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sonho

Meu sono abriga um mar inteiro
Durmo em canoas íntimas
Balançando em nauseantes sonhos
Tentativas fantásticas de mergulho
Pescando palavras silenciosas e submersas.
Sempre tento lembrar de calmarias e amparos
E o que encontro são ondas imensas
Gotejantes tristezas e alegrias incertas
Me desequilibro a cada minuto
E quando toco o último verso
Busco apenas uma frase que defina
Esse abortamento de verdades.
Sinto que caio, vacilo e então desperto:
Onde foram parar as palavras que te disse um dia?
Revisito meus baús e os encontro tão vazios
Vazios de seus olhos e de suas permanências
Entristecidos de ausência de loucura
Revestidos de bordados desfeitos em pedaços.
A vida apagou nossos nomes dos livros
Em que adormecemos
Riscaram linhas de capítulos esquecidos
O mar encobriu com suas águas as últimas pegadas
Da areia em que meus pés pisaram
E os ventos que guardavam minhas lembranças
Sopraram para um tempo que nunca existiu.
Me assombro
Com a invisibilidade de nossa história
Porque na verdade ela nunca existiu:
Foi apenas um sonho.
Então sepulto seu nome
Nas tábuas rentes do meu barco
Navegando em realidade distante e absoluta.