sábado, 6 de abril de 2013

Virose

Na verdade essa dor
Não é bem na barriga
É um desfalecer de aura
Um sufocamento de desamparo
Frio qualquer de falta de alento.
Me deixo queimar por dentro
E botar pra fora uma solidão aquosa
desatinada...
Misturada a resquícios de desesperanças
Desesperos de pura comodidade
Silenciosos enjôos expelidos em pequenos
sonetos de ardor.
Só porque o que dói em mim nem tem nome:
o esquecimento dará conta de teu trágico fim
Lembranças estarão presentes
nos vasos em que vomito
E talvez dor alguma me faça renascer.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Fuga

Enquanto arrumo
meu vestido
Penso:
Preciso apenas
Não estar mais aqui.
Preciso de um lugar
Inóspito
Territótio antigo
inaudível
Qualquer lugar
entre a carne a terra
Qualquer lugar
Onde meu coração bata menos.
Preciso só não estar mais  aqui.
Esquecer intuições e dores futuras
Responsabidades que delego
Em soluços, sem saber.
E procuro outros portos, alheia
Pois já não suporto mais a dor
De pequenas esperanças.
E ainda suplico
por olhos complacentes
E tropeços menores.
Pois sofro de doença incurável:
A verdade que aplaca os incertos
E afugenta os homens.
Peste que em qualquer tempo
Me negligencia.
E me atira em gangorras e feridas
Quando as explicações
São desnecessárias.
Porque necessário mesmo
É estar em qualquer lugar
Longe do gigantismo de minhas
Mesmices e vontades.
Longe de discretos sorrisos
E romantismos afins.
Longe dessa minha incorrigível
Vontade de ser feliz.



domingo, 24 de março de 2013

Certeza

Em longas viagens
Trago palavras entaladas na garganta
Coceiras nas mãos
Versos flutuantes
Sorrisos mínimos e vida em pauta.

Nas costas o prazer absoluto
O peso e o gosto insalubre
Do voto semanalmente renovado.
O solitário sonho
de quem nada no ar.

No estômago o medo
de terríveis previsões
Seguido de sons fùnebres
violinos cortantes e beijos febris.

Mas nada dói mais
Que voltar arrastando em meus pés
Sangramentos maiores
Cortes profundos
Quereres contidos.

Nada dói tanto
Que essa renúncia velada em meus olhos:
A certeza de que estarei sempre só.
O sono que vêm me roubando a vida.
Essa morte de visita  que vem devagar.

Então, me deixo sangrar
Para que escorra em mim
Tudo o que preciso.
Morrer
Para ser novamente
Apenas caminho.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Adeus

Carrego na bolsa
Um adeus despedaçado
Latejando no aguardo
Do tão esperado abandono...
Sempre á espreita de qualquer
 Frieza tranquila
A água gelada do seu pensamento...
E me despeço de você
Cada dia um pouco mais...
Me deixo ser escolhida
Porque crer em tuas dúvidas
E me deixar morrer aos poucos
Talvez seja o único suicídio explicável
Em meus versos...
E atendendo ao seu chamado
Vou e volto presa aos teus pedidos
Com tuas mãos em meus cabelos
E teu hálito em minhas pernas
Para contradizer minha incredulidade
E eternizar a alegria
De sucumbir aos seus encantos...
E da lembrança de teus olhos tristes
Venho amarrada pela cintura
Aos laços de nossas escolhas
Esperando apenas pelo dia
Em que bata á minha porta
E despeje em meus olhos
Um silencioso e incontestável adeus.






segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Lágrimas

Em letras sinuosas
Teço um longo manto de enlaces
Rezo terços dos últimos pecados
Dedilho duas ou três notas
Numa silenciosa música
E vou bordando em dor profunda
Palavras particulares...
Símbolos que só eu posso decifrar.
Faço-me refém de tortuosos pontos...
Ora perfeitos, ora inacabados
Nas agulhas em que espeto
Meus dedos, meus medos
E meu coração...
Porque essa costura
De vontades incontidas
e de desesperos maiores
Me mostra sua presença constante
e borbulhante...
E te encontro no caldeirão em que ferve
a minha lembrança...
Diante dessa contínua e bonita agonia
Que chamamos de saudade...
Quero esquecer de seus olhos
E queimar todos os meus versos!
Porque esse amor só revela
Todo o meu desamparo
E minha louca entrega repentina...
E de seus silêncios e distâncias
Nascem minhas perguntas
Meus intervalos e minha solidão.
Vou tecendo meu manto desnuda
Em canções de outras mulheres
No ritmo de minhas levianas afirmações
Nas horas de espera
por nossos encontros furtivos
E quando te vejo...
Quero apenas represar o meu olhar
para que meus olhos não me denunciem
e digam de uma vez por todas
Tudo o que levaria uma vida inteira pra dizer.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Carta


Só você tem meus poemas
Todos aqueles que escrevo agora
E todos os outros que andavam perdidos
Endereçados a ninguém...
Cartas escritas a mim mesma
Sob a alcunha do encantamento
As vezes tortas e enganadas
Exiladas em minhas gavetas
Adormecidas num tempo
De lonjuras e mares
A espera da voz
Que as despertasse um dia...
Quero que leia em mim
esses versos intrusos
Habitantes de casas
que não lhes pertenciam
Amantes dos rumores
e das saudades
Sonhos naufragados
Interrompidos por breves
espasmos de desejos...
Hoje, resolvo andar mais devagar
e assim as palavras me escolhem
E seus olhos me alcançam
Amanhecem em mim
E escrevem uma carta
Em longos sorrisos
Pouco a pouco
Para que o gatilho
de minhas andanças
Jamais deixe de ser poesia.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Acaso

O acaso que me trouxe até aqui
Entende bem de casos
E encontros
Pois de desencontros
Meus anseios são propícios
E dói tanto ser muito
Em tempos de tão pouco...
Tampouco, esse acaso traz alento
Sussurra um saborear solitário
em pratos de delícias intensas
Enche-me de superlativos
E me dilacera
Para que o amor ordene
Que minhas palavras
Procurem os papéis
As linhas dos cadernos
os pequenos guardanapos
Dos bares onde despejo
Esse pestanejar de incertezas...
Para que encontrem
As valas onde escorregam
Minhas letras furtivas
Como lagartas
Metamorfoseando-se
Em pequenos vômitos de doçura.
E assim dispenso discursos
Deixo escapar
As prematuras borboletas
Esse inquieto brincar contido
Em meu peito...
Para que me encontre em cada verso
Para que permaneças ao alcance
Dos meus sonhos
Para que esse eterno acaso
Contrarie minhas premonições
E uma ínfima esperança de que fiques
Brote pra sempre em meu leito.