domingo, 28 de abril de 2013

Ode à verdade

Hoje estou insana
Falei uma palavra proibida
Saíram da garganta pequenos
Pássaros assustados
Borboletas flutuantes
Sopro de constante brisa
E me senti leve como um malmequer.

Mas ninguém percebeu assim.
O mundo inteiro
Sentiu uma facada no peito
Um sangrar desatinado
Que saiu como um tiro
da boca maldita que a palavra libertou.

Liberta-me palavra louca
Para que jamais assassine meus sentimentos
E mesmo que todos tombem aos meus pés
Ou carreguem pesos insuportáveis
Me deixe escutar a mim mesma pelo menos uma vez!

E de gritos sussurrantes e bocejos caudalosos
O mundo multiplica suas mentiras
Verdades são dardos venenosos
com capacidade de aturdir intelectuais e religiosos
Ateus e mendigos... Homens, mulheres e afins.

Em vãos momentos
E maus bocados
Vamos cedendo espaços
Para o quase, o não é bem assim
O mais ou menos.
Até chegar o dia em que a verdade
Torna-se crime brutal
Inafiançável

Como esse indizível: Eu te amo.

Tempo

Em dias incertos
Quero a fórmula de conter
Esse amor previsível
Prematuro e infante
Prenúncio de um ciclo
De buscas que findam agora.
Nesses dias chuvosos
Entre pingos e bocejos
Respiro a aliviante certeza
De total ausência de futuro
E a urgência dilacerante
De nossas mútuas salvações.
Venho desde sempre
Descortinando ilusões
Entre ontens e amanhãs
Sou apenas hoje:
Vestida e enfeitada
De doces momentos
Para anunciar a liberdade gritande
Que me amarra aos seus beijos.
Respiro um ar superior
De estranhezas e amanhecimentos
Sensibilidades letárgicas
em adormecimentos sutis...
Pois esse quase amor me encerra
Enterra metade
De meus medos e vazios
Adianta passos indecisos
E pinta minhas tardes
com tons de ternura.
Tudo o que suspeito entre nós
Me indica caminhos
Onde encontro meus lápis
e meus caderninhos de outrora. 
E chego inevitavelmente
A qualquer verdade.
Entre lembranças e sorrisos
Safadezas e lágrimas
Vou anoitecendo por dentro
Revisitando aos poucos
Esse buraco negro de regresso
a mim mesma...
E vivo ainda uma década de alegrias
Quando reencontro o que sou e o que sinto
E tudo o que é capaz de despertar em meu peito
Esse tempo nefasto.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Nós

Habita em mim
A sílaba tônica do inconsciente
Monólogo que antecede a alegria
A preamar de meus anseios
De infância e orgasmo
Letras e notas sonoras navegantes

Ilumino e escrevo
Na página da minha saudade
Palavras ilegíveis de demora e espera
Sandices sedentas de sonhos e memórias
O hálito doce que inspiro e despejo

Fica em meu barco o eterno vazio
A presença do mar que me contamina
Uma totalidade imediata:
A capacidade absoluta
De preencher minhas entranhas.

Entrego a  minha pele
Para guardar seus suores e tremores
E dizer em sussurros
O que não se pode dizer em grito
Ou correnteza
Em sopros e ondeios
de inocências múltiplas e lacrimais.

Não quero calcificar meus olhos
De possíveis porquês
Busco só a palavra exata
Que defina esse esvaziamento que completa.
Esvaziar-me por dentro é sorte
Sem doses e limites
Em simbiose
Como se fôssemos filhos
De estranhos silêncios.

E como se não fôssemos amantes
Não busco nomes ou explicações
Deixo o vento soprar nas velas  de seus sabores
Nos rumores das brisas que me aliviam
E nos deixo habitar em oceanos profundos
De apenas poemas e sem fins.



sábado, 6 de abril de 2013

Virose

Na verdade essa dor
Não é bem na barriga
É um desfalecer de aura
Um sufocamento de desamparo
Frio qualquer de falta de alento.
Me deixo queimar por dentro
E botar pra fora uma solidão aquosa
desatinada...
Misturada a resquícios de desesperanças
Desesperos de pura comodidade
Silenciosos enjôos expelidos em pequenos
sonetos de ardor.
Só porque o que dói em mim nem tem nome:
o esquecimento dará conta de teu trágico fim
Lembranças estarão presentes
nos vasos em que vomito
E talvez dor alguma me faça renascer.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Fuga

Enquanto arrumo
meu vestido
Penso:
Preciso apenas
Não estar mais aqui.
Preciso de um lugar
Inóspito
Territótio antigo
inaudível
Qualquer lugar
entre a carne a terra
Qualquer lugar
Onde meu coração bata menos.
Preciso só não estar mais  aqui.
Esquecer intuições e dores futuras
Responsabidades que delego
Em soluços, sem saber.
E procuro outros portos, alheia
Pois já não suporto mais a dor
De pequenas esperanças.
E ainda suplico
por olhos complacentes
E tropeços menores.
Pois sofro de doença incurável:
A verdade que aplaca os incertos
E afugenta os homens.
Peste que em qualquer tempo
Me negligencia.
E me atira em gangorras e feridas
Quando as explicações
São desnecessárias.
Porque necessário mesmo
É estar em qualquer lugar
Longe do gigantismo de minhas
Mesmices e vontades.
Longe de discretos sorrisos
E romantismos afins.
Longe dessa minha incorrigível
Vontade de ser feliz.



domingo, 24 de março de 2013

Certeza

Em longas viagens
Trago palavras entaladas na garganta
Coceiras nas mãos
Versos flutuantes
Sorrisos mínimos e vida em pauta.

Nas costas o prazer absoluto
O peso e o gosto insalubre
Do voto semanalmente renovado.
O solitário sonho
de quem nada no ar.

No estômago o medo
de terríveis previsões
Seguido de sons fùnebres
violinos cortantes e beijos febris.

Mas nada dói mais
Que voltar arrastando em meus pés
Sangramentos maiores
Cortes profundos
Quereres contidos.

Nada dói tanto
Que essa renúncia velada em meus olhos:
A certeza de que estarei sempre só.
O sono que vêm me roubando a vida.
Essa morte de visita  que vem devagar.

Então, me deixo sangrar
Para que escorra em mim
Tudo o que preciso.
Morrer
Para ser novamente
Apenas caminho.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Adeus

Carrego na bolsa
Um adeus despedaçado
Latejando no aguardo
Do tão esperado abandono...
Sempre á espreita de qualquer
 Frieza tranquila
A água gelada do seu pensamento...
E me despeço de você
Cada dia um pouco mais...
Me deixo ser escolhida
Porque crer em tuas dúvidas
E me deixar morrer aos poucos
Talvez seja o único suicídio explicável
Em meus versos...
E atendendo ao seu chamado
Vou e volto presa aos teus pedidos
Com tuas mãos em meus cabelos
E teu hálito em minhas pernas
Para contradizer minha incredulidade
E eternizar a alegria
De sucumbir aos seus encantos...
E da lembrança de teus olhos tristes
Venho amarrada pela cintura
Aos laços de nossas escolhas
Esperando apenas pelo dia
Em que bata á minha porta
E despeje em meus olhos
Um silencioso e incontestável adeus.