domingo, 13 de agosto de 2017

Labaredas


Como se fosse hoje, te esperei entre as quartas mais cinzas e um quarto no alto onde se ouvia o mar. Mais uma vez. Janelas adentro, vento soprando no agosto do seu inverno. Éramos amantes, sempre a carne e o beijo. O chapéu que avistava primeiro, pulando a cancela equilibrado. Assim o bolo e o pão cheiravam mais. O desejo do corpo, uma amizade no cio. Era esse pássaro que esperava no fim da tarde para comer mais do que devia com a voracidade de quem morria de fome ou de prazer. De repente e agora vivencio seus olhos, caminhando em rua estranha. Era você, envolto a dor entorpecente, tão próxima da língua e do corpo que me cobre. 

Paixão

Meus olhos já viviam marejados, desde a visita noturna que pulou a janela e me fez sonhar. Sonhei acordada a noite inteira, entre pernas e suspiros, o cheiro de goiaba e a fome ensandecida. Me vi preenchida de plena liberdade e prisioneira do que era ilícito. Desde então, minha busca tornou-se intensa entre o seu cheiro e a minha paz. A pele lisa por onde passeia meus cílios, entre fogueira e ventania. Chuva que ondeia o barco em que navego. Navegante de minha própria sorte no mar mais revolto em que me atrevi a entrar. Sentada no cais do porto, pedi que o vento levasse seu ar de tempestade e me devolvesse as noites que posso carregar no colo, no destino incerto e provável da vida.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Pablo Neruda

Era livro
Coisa nenhuma
Só uma dor
Que não se sabe onde começa
Nem quando termina.
O único e interminável
Pretexto
Que te fizesse lembrar
Da minha existência.
Ainda hoje
Procuro respaldo
Nos livros que leio
Em busca de algum poeta
Que explique
O inexplicável
Sentimento
Que não finda.
De todos os pássaros
Que vi essa noite
Os mais lindos
Estavam pendurados
Em paredes de sonhos azuis
Entre cobertas e cordéis estrelados
Nesse mar de fumaça e encontro
Ele me faz em verso
E de gole em gole
Me poetiza.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Promessa

Sabes meu encanto:
aquele de algum dia
sobrepor tua lembrança
reduzir a pó o sentimento
esquecer teus olhos
num instante.

Sobre o silêncio

Sorrateiro
Contido em gritos
Disfarçado de força
paz de espírito
Dor que lateja
Em volantes
e finos lençóis
Roupa de carne
já tão pesada
e esdrúxula
Quem és tu, minhas vestes?
De onde vens,meus disfarces?
Agora
quero mostrar a ferida
O sangue
a carne viva
o céu aberto
da boca em vício
o olho estéril
e o sonho alado!
Palavra não proferida
mata-me aos poucos
Reinventa a loucura
do obcecado apego
Corta-me os pulsos
essa voz debutante
Presa as cordas vocais
às primeiras vogais
do meu nome
à prontidão da bílis
e do vômito.
Se a felicidade soubesse meu nome
e andasse de pronto
ondejante em meus mares
Me esvaziaria de incertezas
e me reduziria a algodão...
Voaria distante levada
por tempo soprado
Ao vento e ao solo
Destinada
À semente derradeira
plantada em pouco sangue...
E assim criada à pouca dor
e nenhuma espera
Deixaria imaculada
essa marca perfurada
Em minhas entranhas
E me faria outra:
Nunca mais seria
prisioneira
de nauseantes doçuras
e olhares infantes.

Bordados


Costuro enquanto
estilhaça o meu corpo
peito refeito e desfeito
com mil fios e trapos
Pequenos bordados
sangrantes
relatos
memorias indóceis
frívolo amor.
Tão fugaz
a felicidade em visita
ligeira
escapou-me às mãos
como as águas do mar
em tempo de senti-la
Escorrer
entre dedos cortantes
Sem promessa, vontade
pistas, verdades
Só a agulha que escreve
Essa dor à metade
Nauseante centelha
De inércia e espera.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Sobre o natural

Fundos são meus olhos
acostumados a noites perdidas
perdidos entre as folhas
das árvores
vozes de crianças
brisa de quintal.
Perdidos imaginando
seu peito devastado
a dor absoluta
memórias de horror.
E o que queima e arde
é uma lembrança translúcida
que chicoteia e esmiúça
a carne humana
que dilui e multiplica
a última lágrima represada.
Porque doer por si só
é absurdo
mas sangrar a dor do outro
é sobrenatural.







segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Festival

De passo em passo
Entre poças e tropeços
Peço ajuda aos meus pés
para que me perdoem
de ser assim:
Dançarina de erros
desastrada, desperdiçada
Esmiuçada, despedaçada
Criança perdida em sensações
sonhos e beijos
cachaças,braços e volantes
Esperanças...
Porque da vida e do corpo
eu digo que entendo
e meus pés me seguem!
Mas do abandono e da morte
meu coração congrega.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Voz

Ela chegou
Como água rastejante
Em meu calcanhar
Subiu em minhas pernas
E enroscou-se como serpente
Em minhas entranhas
Perplexa
Diante de alma tão infantil
Arrebatou meus sonhos
Sentenciou meu ofício
E pôs os teus pés
À minha frente...
Desde então
Caminho em teus passos
Lentamente
Nutrindo-me de leite e sangue
Me equilibrando
Nas pedras de tua ausência
E nas águas de tua chegada
E como se já não fosse Ig
Apenas nascente do teu destino
Esqueço meu nome
Me defino única em seu timbre
Marco em gozo e em lágrima
O caminho inundado de tua língua
Até flutuar em qualquer gota
De medo e esperança
Até me perder
Na chuva de loucura
Que me trouxe a tua voz.



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sono

Continuaria dormindo
Não fosse essa lua
Que em brilho e ousadia
Gritasse em meu peito
Outra vez o teu nome

Contemplativa
Vejo teus olhos
Em céu estrelado
Ressoa a lua com seu lustre em canto
Anoitece a alma em tua lembrança

E silenciosa
Do fim ao começo
Me atinge o amanhecer
Confunde meus sonhos
Rabisca meus passos
Enfim adormeço

E o que sinto
Permanece
Vasto
Infinito
Inteiro

Profundo
Caminho
Iluminado
Sobreposto
Em minha vida
Adormecido em meus sapatos
Guardado em trapos
De bom sono

Só você me acalenta e me desperta
Habitante antigo
Do universo onírico
Do meu travesseiro.





quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Lunática

Não determino hora
Para a poesia do desamparo
Ela surge de repente
Disfarçada de sorriso
Em voz divinamente abafada
Deglutida em doses de agonia
Dissolvida em ásperas verdades

Deixo que anoiteça
A precipitada tristeza
Que amanhece na garganta
Pois em cada gole derramo
Veneno em gosto de esperança
Melancólica e sonora solidão

Mas tudo o que respinga em mim
É palavra

Só ela
Adormecida
Ou pronunciada
Cheirando a álcool
Destilada
Me define
Como a lua
Em desequilíbrio e escuridão

E como se fosse o avesso
Antagônica e incorrigível
Trago a noite inteira
Em minhas entranhas
O sol e as sílabas
em meus cabelos
E uma dor intensa
Me reparte em mil pedaços
De amores e certezas que cintilam

Meu peito: céu ferido e eternamente estrelado.



quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Sinceramente

Entre feiuras
E agruras
A desventura
E o tempo perdido
O coração se esconde
Em plena fuga

Diante do circo
Dos horrores
Um cão pulguento
Se encolhe
Atrás do poema
De um olhar que cintila

Mas a vida não gosta
De máscaras
E esconderijos
Secretos

Cedo ou tarde
Todo mundo se revela
Do jeito que realmente é:
Desfigurados rostos
Reféns do que não somos.



quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Falta

Deixei meu olhar pendurado
Na janela da varanda
Esperando teus passos
Em sombra inteira
Estiquei meus braços
E com a alegria nos pés
Escorreguei à minha infância

Chovia fininho
Em céu estrelado
Cada gota molhava
Meu solo em pranto
Cheguei atrasada
Em minha própria morada
Tardia e singela
Fora minha esperança

Passei a cultivar
Meus jardins em peito aberto
Procurei tua boca
Em flores nascidas
De paz em paz
Regava meus sonhos
Até despencar
De vez nesta vida

Até hoje estou juntando
Pedaços de mim mesma
Procuro meus cacos
Confusa em cada esquina
Soletro meu nome
Quando o encontro é contínuo
Reconheço meu rosto
Em espelhos partidos

Até encontrar
A parte exata que me falta
Até descobrir
Que nada me completa.



terça-feira, 17 de setembro de 2013

Instante

Fugindo
de minhas palavras
Labaredas de
poesia cotidiana
O que antecede
a respiração
De todo instante
Sou toda
Momento...
Atemporizo
Me permito escapar
e adormeço
Para não ouvir
essa voz de permeio
Minha  própria dor
Crepitante
O borbulhar na garganta
Um vento...
A desventura companheira
E relutante
Um sonho febril
Olhar infante
Para não teorizar sobre a vida
nem sobre você.
Não quero me encontrar
Em qualquer esquina
Fujo de mim nessas ruas vazias
De meu corpo solitário
Incompreendido
Coberto de desejo
Renascido em mil palavras...
Sou o instante
Aquele que te fita á porta
De minha espera
A voz que fala o seu nome
Em simples verso
O meu cantarolar
ao meio dia
Esse pestanejar
Entre a decepção
E a alegria.




segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Profecia

Quando já não valer a pena
Deixarei essa esperança
Estendida no varal
Fecharei delicadamente
A porta entreaberta
Atrás de mim
E darei voltas no mundo
Saltarei por imensos abismos
Sem apego aos seus braços
E tudo o que hoje em você
Me desperdiça
Já não arderá tanto...
O que em mim explode
Pulsa, derrama
Jamais despertará silêncio
Numa noite de angústia
O esquecimento não acorda
Com apenas um temporal
O amor fala mais alto
Solar, incandescente
Independente de chuvas sazonais
e tropeços de engano.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Despedida

A última palavra é a despedida
Porque velei os meus olhos
Renunciei
Á beleza do olhar sobre a vida
E acreditei  por um momento
que a verdade nunca existiu.

Achei que o que fosse raro
Mesmo que uma vez acabado
Fosse guardado num tempo
Entre o infinito e o espaço
e que nada ou ninguém
Fosse capaz de destruir
Aquilo que o universo
guardou um dia.

Como se não nos pertencesse
Como se a história
Fosse dona de si mesma...

Busquei o respeito
Senão a nós mesmos
Pelo menos que houvesse
Ao eterno bordado
em que teceram nossas vidas.
Nem que fosse ao costureiro
Que bordou nossa história!

Imaginei
Que revenciaríamos o destino
Esse eterno condutor
De causas desconhecidas
E tudo o que encontrei
Foram flores jogadas á minha cova
Por desconhecidos ignorantes
Que jamais sonharão
com as marcas e a direção
de nossos passos.

Acordei
Entre soluços
Para ver os brotos
Da desesperança nascerem
Para admirar a morte
de jardim tão florescido
Em amor e saudade
Carinho e desgraça.

Continuei dormindo
Para que talvez um dia
Volte a acreditar na vida
Lance-me em altares preciosos
para lavar minhas feridas
E curar os meus olhos
De vida, de beleza e de encontro.                              

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sempre



Minhas palavras
São insistentes
Não querem terminar
Em qualquer esquina
E se vacilam em curta estrada
Não se deixam enterrar por nada.

Tão diferentes de mim
Que fecho as portas
Á qualquer ruído de dor
Que fujo do abandono
Intuído
E já anuncio a renúncia
Mesmo antes de lutar.

Não quero destruir
Quero entrar e sair
da porta entreaberta
Descansar
em teu pequeno quarto
Sem mudar
qualquer móvel de lugar.

Em minha memória
Guardar os teus olhos
Romper o tempo minúsculo
Que nos fraciona em muitos
Impedir que o relógio
nos determine.

Não quero mexer
Em teus quadros
Quero apenas ver além
E ter o prazer de revisitar
Tua vida sempre.








Somos

Mesmo quando
Tudo em mim
vira silêncio
Tua voz ainda surge
Vibrante
Latejando
Em meus fins de semana
Vazios
Entre poucos e aparentes
passos
Em presentes encontros
Saudades aquecidas
Felizes minutos
De doce espera.
Meus pés silenciaram
Quando os teus
Puseram fim
às minhas andanças.
De andarilha
Passei a morar
em mim mesma
Me equibrando
Em peito aberto
Perto de teus caminhos
Sempre á frente
Da porta entreaberta
Que encontrei um dia.
Então entrei
Fixei morada em teu colo
Meus dedos descansaram
Em tua pele
E sentada nos bancos de areia
De tuas claras pernas
Quero falar de longas
ternuras
Sobre os estreitos
corredores
De nossa alegria.
E mal consigo articular
Uma palavra
Apenas desejo

E sinto

Sou

Somos.